quinta-feira, 18 de julho de 2024

Vida de pulga em tempos de pandemia...

a minha prótese mental foi retirada hoje e sinto ainda comichão ...para quem tem menos fusíveis a luz apaga-se depressa mas também se acende lenta e amargamente...hoje coloquei o meu umbigo em cima da mesa que tinha uma prótese imaginária e deu-me comichão na mão amputada que segura um lápis azul e vermelho.....essas duas cores misturam-se no papel e sai um tom merdoso e medroso...sinto falta da minha prótese do negro e do branco enrolados... esqueci-me dela na casa de alguém de quem não me lembro.... prosaicamente...o que me vale é que ainda tenho as pilhas todas carregadas...e duram duram durmam! Malditas comichões!... já nem sei por onde mais me coçar.... próteses aqui próteses acolá...raios me partam as próteses! Ah espera lá...afinal eram só pulgas...Biokill...pufff pufff pufff..assunto resolvido...ufa!... ahhhhh merdaaaaaa eu esqueci-me.....eu sou uma pulga! Talvez ainda me dê tempo para me coçar....RIP


AVC - Junho 2020

terça-feira, 2 de julho de 2024

Covardia ganha na roleta russa

 

Lavo as pedras com lágrimas...

 que se despedem de mim.

Cravando as garras...

do desalento no meu peito,

treino o desapego de mim.

Entre animais que não me reconhecem...

ensaio os pensamentos que criam o aparente vazio dentro de mim

O pó dos dias invade-me...entra-me na pele...sufoca a minha enfraquecida imaginação.

Este mesmo resto de cinzas de um coração que se incendiou...

tolda-me a memória dos dias.

E eu deixo-me arrastar pela corrente de um rápido que desce a pique para o abismo...

Abandono-me entorpecida a um destino que com a minha débil razão se confunde numa amálgama de dor...

Falta-me a audácia para viver e a coragem para morrer...

Entrego-me às lágrimas e à solidão..

Mergulho  numa letargia oculta por breves sorrisos e aparentes gargalhadas...

Tento disfarçar a dilacerante tristeza de não mais ser eu...

Não me reconheço no espelho que guardo no bolso do coração.

Quem me dera que fosse só fechar os olhos...e toda a memória em mim e de mim se tornasse pó...

um pó que soprado pelo vento...

se espalhasse eternamente dentro dos  salpicos da chuva 

que lavam o rosto cansado de quem chora por e para um poema.

AVC

2 Julho 2024

sexta-feira, 10 de julho de 2020

ESTOU INFINITO FEITO NUM 8

quinta-feira, 18 de junho de 2020

Acidente gerador de palavras mudas

eu e a PoEsia tropeÇámos uma na outrA e não sei qual de nós ficou pior...

sábado, 9 de maio de 2020

Máscaras

a vida são todos os instantes…
em que não somos

terça-feira, 28 de abril de 2020

É fodido...

É fodido...
é fodido quando a pessoa que amas acha que não vales a pena
que não vale a pena lutar por ti
é fodido quando uns discutem milhões e tu contas tostões e às vezes já nem tostões tens para contar
é fodido quando a mãe que querias ter nem te faz um telefonema
e tem mais o que fazer
é fodido quando te levantas e afinal hoje também não tens do que sorrir e nem te lembras da ultima vez que o fizeste
é fodido virem aí as eleições e saberes que nenhum vale o teu voto e que se voltares a votar é sem esperança
é fodido pensar que sempre há quem se safe bem com uma boa intrujice e tu transbordas de gestos honesto sem um tostão no bolso
é fodido é fodido é
mas o que é mesmo fodido
o que é realmente fodido
é não teres a quem amar pois simplesmente metralharam toda a tua aldeia toda a tua esperança
é não teres um grão para encher o papo porque ao teu redor existe um deserto e pessoas que não te dão pão
é não teres mãe nem pai porque vives na Síria e já rebentaram com eles
é teres um sorriso permanente na cara desenhado por uma faca que mais uma vez te marcou quando o teu companheiro o desejou
é viveres numa ditadura em que só a palavra voto te pode matar te pode estripar te pode fazer desaparecer
é quando vives no meio de intrujas e nunca aprendeste nada de honesto a não ser jurar que te vingarás de todos eles
isso sim é que é fodido
fodido por fodido
olha que se foda!

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Perdi os meus poemas



Perdi os meus poemas
Não os consigo encontrar
Procurei por todo o lado
em todos os cantos
e recantos
Onde se procura um poema?
Por onde se esconde um poema?
Alguém o viu?
voei entre os pássaros
corri entre os cavalos
saltei entre os coelhos
mas não encontrei um poema
procurei-os debaixo das pedras
mergulhei no fundo do mar
entre as rochas
sobre as ondas
onde estão os meus poemas?
Como buscá-los?
Onde se esconde a poesia?
Talvez entre a maresia
Talvez atrás duma orelha
Talvez debaixo duma telha
Ofereço uma recompensa
A quem vir os meus poemas

Um princípio a partir do fim



O fim de um ovo
Uma aranha costureira
Um pássaro novo

O fim de um casulo
Uma borbaleta
Com pintinha preta

O fim de uma barriga
Um bebé chorão
louro como espiga

O fim de uma supernova
Mais um peixe no mar
E uma estrela nova

O fim de uma semente
Uma árvore forte
De ver menino contente

O fim de um vulcão
Uma montanha no mar
Uma ilha com furacão

O fim duma estrada
É casa alentejana
Com milho à entrada

O fim de um rio
É mar salgado
Com muito safio

O fim de um Epá
É sorriso e – ena pá!
Tem pastilha azul

O fim de uma noite
Uma manhã fria
O uivo de um coiote

O fim de um sonho
Rir ao acordar
E saltar do ninho

O fim de um dia
Uma noite com lua
Uma caminhada tardia

O fim de um fogo
Uma brasa de mandarina
O soninho de uma menina
O fim

Nunca saberei



Nunca saberei em que pensas
Sentada nessa cadeira
Nunca saberei o que levas
Para junto da tua lareira

Dispo-me à tua frente
Uma nudez de palavras
A minha mente demente
Uma terra que lavras

Sem te poder abraçar
Como abraço a uma mãe
Sem poder atravessar
O espaço que nos retêm

Queria poder perguntar
Se tens um gato ao teu colo?
Queria deixar de imaginar
Que te encontro noutro pólo

O que lês nos meus sonhos?
O que prevês nos meus desejos?
Eu queria ter dois ninhos
Sem me picar nos tojos

Deitada numa cama
A dizer o que não penso
Espero pela tua calma
Que se agita como um lenço

Anseio pelo dia
Em que deixe de te ver
Sabendo que podia
Abandonar-te sem doer

Meu poeta



Apaixonei-me por ti poeta
Só te conheço o nome
A tua poesia penetra-me como uma seta
O meu imaginário torna-se disforme

Quem disse que preciso conhecer
Aquele por quem o meu desejo chama
Acaso o rio tem de conhecer
O mar onde se derrama?

A poesia é uma noite
Em que sonho contigo, meu poeta
A lua espera que me deite
E as estrelas saem em festa

Quando estou junto do mar
Converso e chamo por ti
Às ondas ninguém as consegue domar
A mim só o desejo de ti

Imagino o nosso encontro
Uma conversa agitada
Um mundo terno em que entro
Um sorriso, uma partida

Queria contar-te um segredo
Que partilhei com a lua
Abraçar-te sem medo
Dizer-te que não sou tua

Queria mostrar-te os meus poemas
Dar-te um beijo envolto em desejo
Versejar, discutir todos os temas
Levar-te a passear no Tejo

Enrolar-me no teu colo como um gato
Lamber-te as feridas
Acompanhar-te no salto
Falar-te de páginas lidas

Apneia




Corro para ti
Como corria antes
para as ondas do mar
Mergulhando no teu corpo
Em apneia
Como quem explora
O fundo do oceano

Ausência




Uma ilha
O sol do entardecer
E a tua ausência
Fazem-me desejar
O futuro

Mãos



Caminhar na areia
E senti-la quente
Como antes sentia
As tuas mãos
no meu corpo

Imagem




O sol cega-me
E a tua falta emudece-me
Aqui sozinha
Em frente ao mar
Sinto-te proximamente longe
As saudades são salpicos de sal
Fecho os olhos e vejo
A marca do sol na minha retina
Assim desejava que permanecesse
A tua imagem em mim

Cheiro




Queria embebedar-me
Como o teu cheiro
E caminhar aos esses
Num beco escuro

Todos os dias



Fico todos os dias impaciente
Esperando que me fales
Me digas que sentes a falta
da minha voz
Todos os dias te escrevo
Todos os dias te desejo
Imagino tocar-te,
Ao de leve na pele
E senti-la arrepiar-se
Fechar os teus olhos
com um beijo
acordar-te
com um sopro
no cabelo