quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Um princípio a partir do fim



O fim de um ovo
Uma aranha costureira
Um pássaro novo

O fim de um casulo
Uma borbaleta
Com pintinha preta

O fim de uma barriga
Um bebé chorão
louro como espiga

O fim de uma supernova
Mais um peixe no mar
E uma estrela nova

O fim de uma semente
Uma árvore forte
De ver menino contente

O fim de um vulcão
Uma montanha no mar
Uma ilha com furacão

O fim duma estrada
É casa alentejana
Com milho à entrada

O fim de um rio
É mar salgado
Com muito safio

O fim de um Epá
É sorriso e – ena pá!
Tem pastilha azul

O fim de uma noite
Uma manhã fria
O uivo de um coiote

O fim de um sonho
Rir ao acordar
E saltar do ninho

O fim de um dia
Uma noite com lua
Uma caminhada tardia

O fim de um fogo
Uma brasa de mandarina
O soninho de uma menina
O fim

Nunca saberei



Nunca saberei em que pensas
Sentada nessa cadeira
Nunca saberei o que levas
Para junto da tua lareira

Dispo-me à tua frente
Uma nudez de palavras
A minha mente demente
Uma terra que lavras

Sem te poder abraçar
Como abraço a uma mãe
Sem poder atravessar
O espaço que nos retêm

Queria poder perguntar
Se tens um gato ao teu colo?
Queria deixar de imaginar
Que te encontro noutro pólo

O que lês nos meus sonhos?
O que prevês nos meus desejos?
Eu queria ter dois ninhos
Sem me picar nos tojos

Deitada numa cama
A dizer o que não penso
Espero pela tua calma
Que se agita como um lenço

Anseio pelo dia
Em que deixe de te ver
Sabendo que podia
Abandonar-te sem doer

Meu poeta



Apaixonei-me por ti poeta
Só te conheço o nome
A tua poesia penetra-me como uma seta
O meu imaginário torna-se disforme

Quem disse que preciso conhecer
Aquele por quem o meu desejo chama
Acaso o rio tem de conhecer
O mar onde se derrama?

A poesia é uma noite
Em que sonho contigo, meu poeta
A lua espera que me deite
E as estrelas saem em festa

Quando estou junto do mar
Converso e chamo por ti
Às ondas ninguém as consegue domar
A mim só o desejo de ti

Imagino o nosso encontro
Uma conversa agitada
Um mundo terno em que entro
Um sorriso, uma partida

Queria contar-te um segredo
Que partilhei com a lua
Abraçar-te sem medo
Dizer-te que não sou tua

Queria mostrar-te os meus poemas
Dar-te um beijo envolto em desejo
Versejar, discutir todos os temas
Levar-te a passear no Tejo

Enrolar-me no teu colo como um gato
Lamber-te as feridas
Acompanhar-te no salto
Falar-te de páginas lidas

Apneia




Corro para ti
Como corria antes
para as ondas do mar
Mergulhando no teu corpo
Em apneia
Como quem explora
O fundo do oceano

Ausência




Uma ilha
O sol do entardecer
E a tua ausência
Fazem-me desejar
O futuro

Mãos



Caminhar na areia
E senti-la quente
Como antes sentia
As tuas mãos
no meu corpo

Imagem




O sol cega-me
E a tua falta emudece-me
Aqui sozinha
Em frente ao mar
Sinto-te proximamente longe
As saudades são salpicos de sal
Fecho os olhos e vejo
A marca do sol na minha retina
Assim desejava que permanecesse
A tua imagem em mim