Que resta de mim
quando tu me trespassas?
Me arrancas a pele
me estilhaças o sentir.
Que encontro em ti
nestes dias frios?
Em que sinto o nada
invadir-me subtilmente
Acaso teria sentido
dizer que hoje te ignoro?
Quando me pressiono
contra ti em esforço
Acaso poderia sentir
os passos que me rodeiam?
Quando tu me esqueces
por momentos de abandono
É a ti que procuro
quando escuto a noite
e o medo me invade a pele
e me atiro a pensar que voo
É a ti que escuto
quando já não suporto
a insustentável normalidade
de um dia lento e cru
Deixa-me enrolar-me em ti
confundir-me contigo
Canta-me ao ouvido
a canção da imortalidade
Deixa-me iludir-me
com ideia que te sentirei
toda uma vida
toda um noite eterna
Finjo perante um dia sem ti
que estás presente
que me apertas a mão
e me conduzes
Finjo perante sábios crentes
que te quero arrancar de mim
te renego te açoito te intolero
para que me deixem em paz
Mal sabem eles que de noite
te rego as raízes te alimento
Com a esperança que me abraçes
e me arranques da apatia desses dias
Mal sabem eles que te encontro
em cada esquina rota
em cada folha rasgada
em cada gesto contido
Nos dias que não te vejo em mim
sinto que me amputaram
e arrasto-me sangrando
buscando-te debaixo do medo
Há quem te queira arrancar de mim
que ilusão de poderosa sabedoria
Não sabem eles não imaginam
Que eu sem ti não vivo, sobrevivo
Pois tu és a mãe que me embala
o tronco que me sustenta
o princípio do meu sorriso
a morte dos meus inimigos
Bendita sejas tu loucura minha
Sem comentários:
Enviar um comentário