sexta-feira, 27 de dezembro de 2019
Tu
Pedem-me que escreva poemas
Eu queria escrevê-los
oferecê-los envoltos em suavidade
como morangos em caixas muito arrumadinhos
e bem distribuídos
que cada poema meu fosse parte do meu respirar
em dias de paz e sorrisos
mas és tu quem escreve por mim nestes dias
tu que não descansas quando eu durmo
tu que estás atenta quando eu de ti me esqueço
tu que me despertas a meio da noite e me segredas
num murmúrio bem dentro de mim
- desperta-te! liberta-me!
és tu que caminhas arrogante, entre gentes, que não te conhecem
e te disfarças em mim
és tu...que me tomando o pulso
escreves poemas que cortam o papel
que me fazem gritar para dentro de mim
num rugido afónico:
não quero mais poemas teus!
és tu que me olhas no escuro
que me envolves em medo
és tu que me passeis pela trela em dias em que não durmo
que me aqueces o estômago em dias de fome
és tu que vês o que outros escolhem não ver
que gritas para dentro de mim
e o teu grito estilhaça-me
fragmentos de mim espalham-se pelo chão
e eu os recolho um a um
tentando encontrar-me nessa manta de retalhos
que teço em ritmo com linha de dor
mas essa manta já é outra de mim
quanto de mim reconheceram em ti
quanto de mim já se confunde em ti
poderia eu fugir...esconder-me atrás de sombras
luto contigo e por ti
todos os dias
e o nosso sangue mistura-se
e o meu cuspo sai da tua boca
e as minhas lágrimas são a tua saliva
e com a tua boca mastigas a minha razão
e regurgitas-me vezes sem conta
e sempre que saio de dentro de ti
é um esqueleto que se estatela no chão, nas pedras
músculos que todos os dias reaprendem o seu movimento
eu não me quero confundir-me contigo
que as pessoas me vejam e pensem que falam contigo
que te leiam quando me lêem a mim
tu és o meu sangue cuspido por aqueles que me ferem
a minha parte mais sangrenta
a minha raiva engolida
em seco
eu te vomito em nome dos deuses
e a ti regresso como
cão a seu dono
tu és aquela a quem não ouso acordar
a quem embalo
com as mãos a rodearem-me a cabeça
arranco-te de mim todos os dias
e a ti regresso todas as noites
porque tu me reconheces como sangue do teu sangue
semente da tua árvore
fruto do teu ventre
novamente me rebentas por dentro
estilhaços de mim voltam a espalhar-se no quarto
recolho um a um os restos de mim
com um cuidado trémulo
com medo de me cortar
junto , coso esses pedaços
mas já não me reconheço nessa manta de retalhos
partes de mim se perderam pelo chão
pela luz que nos trespassa
mostro a manta a quem me ama
digo
vês esta sou eu agora
gostas?
tu deliras com a pergunta
saltas pulas
rebolaste no chão numa gargalhada que me rompe os tímpanos
contigo consigo escutar o coração de outros
e o meu bate como se fosse o seu último bater o derradeiro
contigo ouço conversas que sem ti eram meros murmúrios
contigo o ruído das ruas torna-se ensurdecedor
contigo passo horas e horas a discutir a minha razão
sempre me ganhas na loucura
há dias que estou tão cansada desta luta
que penso
deixa-te levar
deixa-te ir
e sonho que descanso em ti
que me fundo em ti
que me esqueço de mim
e assim de mim não sentirei falta
os outros que a sentem que se lixem
eu só preciso de ti
tu serás meu alimento
meu respirar
minha outra vida
dizem-me que corro o risco de morrer contigo
mas que sabem eles da morte e de ti
eles não sabem que não há quem me ame tanto como tu
que contigo somos nós
às vezes duvido que eles saibam realmente o que seriamos nós
dizem que me afaste de ti
que te destrua
que te mastigue
que te cuspa para fora de mim
que te arranque de mim
que te ampute
mas que sabem eles de mim sem ti
se só me conhecem contigo
mal sabem eles que te necessito de noite e de dia
que sem ti não veria peixes e flores a rodearem-me
em danças de luz
não sabem que sentiria a tua falta
que te sentiria como um membro amputado
que se te arrancasse de mim...eu morreria também
todos os dias me pergunto se quero morrer de ti ou sem ti
há dias em que te arranco do meu coração
te arrasto pelo chão
te pontapeio
te massacro
te destripo
para logo me arrepender
e te cuidar
te embalar
te curar
te cuidar
como se fosses mãe
como filha de ti
que responder quando me perguntam se te quero deixar ir
a morte é bem mais doce qunado me apertas contra ti
em ti sou mais de mim
contigo sinto mais de mim
sem ti secaria por dentro
sem ti sou uma sombra de mim
que pretendem de mim aqueles que te rejeitam a ti
que sabem eles de mim...sem ti
serei eu os restos de ti?
és tu a minha cauda
o meu pincel
o meu amuleto
a minh bola de cristal
as asas que não se queimam
o fogo que não se apaga
quero tragar-te todos os dias
como uma ostia
rezar contigo dentro de mim
às vezes canso-me de me queimar na tua chama
mas sempre volto a ti
é enrolada em ti que durmo todas estas noites
hesito em escrever porque de mim sais.
das pontas do meus dedos
para o papel
como pingos de sangue
que incomodam o leitor
e entre letras o meu... o teu sangue vai pingando
e quem me lê detecta-te em mim
depois há aqueles que adoram que tu use pregada ao peito
a segurar-me o cabelo
a amparar-me o andar
a esses também os gosto de ouvir
sorrio
finjo que sou tu
que sou tua
e nesse momento acredito que sou tua
irmã siamesa
dizem-me que posso viver sem ti
como se de uma pequena cirurgia se tratasse
não vêem que o meu sangue precisa do teu
que respiro pela tua boca
que leio com os teus olhos
que se te tenho de vez em quando adormecida
é para que descanses
e te despertes com todas as tuas forças em mim
que seria do meu eu sem o teu?
estou cansada de ti
mas estou exausta de mim
tu és o meu último folgo
porque tu és o que sou
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Sem comentários:
Enviar um comentário