Não te escrevo poemas
Não quero escrever-te poemas
Porque me abandonaste
no meio de um monte de poemas
Corri para ti
e tropecei num poema
bati como o nariz no chão
perseguiu-me um cão
Tentei correr e alcançar-te
mas agarrei apenas uma pequena rima
Olhei para cima
e só vi nuvens de poemas
estrelas de poesia
Rebolei na relva
Cacei borboletas
mas entre a rede
só encontrei poemas.
De ti nada...
Porque me deixaste?
entre gentes que nada me dizem
que me contradizem
Que posso esperar dum mundo
sem ti?
Recuso-me a escrever-te um poema
Sem ti não há poemas
Sem ti não há rima
Sem ti só há sede
Sem ti só há noite sem lua
Sem ti há uma queda sem rede
Sem ti ando à toa
ando aos esses
De tanto te procurar
entre as gentes
perdi-me
e já noite
não pude regressar
dormi ao relento
debaixo duma noite fria
o estômago e o coração apertados
os olhos com força fechados
Nessa noite nevou
nevaram milhares de poemas
e o meu rosto gelou
Tentei agarrar os flocos de poesia
conservá-los entre os dedos
mas vi-os derreter
sem nada poder fazer
Porque me abandonaste?
entre feras
na erva daninha
a minha alma sozinha
entre árvores queimadas
num caminho estreito
Queria recusar-me
Recusar-me a escrever poemas
A quem me rejeitou
A quem me atropelou
Mas
Desgraçada de mim
a quem a poesia se entranha
como a humidade
numa noite de Outono
Triste de mim
que até poemas vomito
quando enjoo nos barcos
E todos esses poemas são para ti
Amor
Que enchem
como um campo de flores
cheio de cores
a minha perturbada alma
Que escreveria sem ti?
poemas murchos
numa velha jarra
num cemitério
ao abandono
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