segunda-feira, 19 de março de 2018

Continente


É neste Continente que deixo partes de mim
Pequenos segredos
Histórias com nexo
E sem.
Continente, que põe em dúvida o mar
Que me tira a cobardia
Onde me confundo entre palavras
Continente em que tu és Senhora
De muito
E de uma parte de mim
Com sorrisos te atiro os meus medos
Para que os desmontes como peças de lego
Peças que te peço de volta, sem arestas
Terei eu continente mais livre do que este?
Onde posso dizer tudo o que me vem à cabeça
E fazer quase tudo o que me dá na real gana
Por vezes tenho vontade de conquistar esse Continente
Entrar de rompante e confundir a tua razão
Mas que faria eu com tamanho Continente?
Entre mãos que tremem denunciando a minha fragilidade
Acho que te o devolvia embrulhado em folhas de maré
Com um sorriso no canto da boca,
Como um cigarro que nunca se apaga.
Continente em que me estendo
E os meus braços tudo alcançam
Quase tudo…
A ti não…
Senão…
O Continente desaparecia
E passava a ser uma ilha entre muitas
Nesse Continente posso ver tantas luas como estrelas
E posso passar pela Alice em vez do coelho apressado
Que outros vêem em mim
E de pequeno ilhéu passo a Continente
Durante o tempo que resta
A alegria de te reencontrar acende-se como um rastilho
De foguetes chineses
E eu leio nos teus gestos aquilo que não te atreves a dizer
E nos teus olhos aquilo que não me atrevo a perguntar

Bicho


Sou bicho
Sou animalito
Sou servivente
Sou cobra-bicho
Que come animalito
Sou ser-pente
Penteio flores
Sou aranha-bicho
Faço teia linda
Com muitas cores
Sou arranha-bicho
Sou bicho com unha
Pendurado em árvore
Como fruta de flor
Sou bicho-sapo
Coaxo como chocalho
De vaca passeando
Em manhã de orvalho
Sou peixe-bicho
Sou bicho veloz
Sou pão de lontra
Amigo do coral
Sou bicho oval
Boto ovo azul
Meu pintainho é de linho
Sou bicho-beija-flor
Bebo mel das caricas
E cheiro a mangerico
Sou bicho-mião
Como semente de melão
Cuspo em bicho papão


domingo, 17 de dezembro de 2017

Lisboa Migradora


digo-te minha irmã…

que…




Lisboa começa a despertar

antes mesmo que eu consiga adormecer




basta-lhe para isso

uma nesga de sol - mistura de azul e de vermelho -

marcando a fronteira entre

a baixa da cidade e o alto do céu.




as estrelas perdem o brilho

como se adormecessem ao som do primeiro pilritar

dos pássaros - que espalhados por varandas e jardins -

são os primeiros a tagarelar




conversas entre vizinhos,

que sempre têm algo de novo para contar,

mesmo que seja o mesmo de sempre




entre duas batidas de asas

- que se preparam para o voo

ou que sonham com ele -

a conversa fica em dia.




e mais uma estrela desapareceu

perdendo-se no céu,

pois um céu assim confunde até as estrelas

quanto mais a mim, minha irmã…




à medida que o céu se acende ao sol,

ouvem-se

carros ainda estremunhados,

buzinas ainda tímidas,

cães que imitam bem a valentia e

o som de um comboio - que risca o Tejo -

ainda não silenciado pela pulsação

de uma cidade a correr para o trabalho,

e claro…

o burburinho dos vizinhos

que ainda podem trocar duas asas de conversa.




as luzes vão se apagando

- aqui e ali, e também aí…-

como velas sopradas por uma porta

que se abre.







e entretanto surge o momento que te espera

aqui na nossa cidade

longos segundos

em que eu - e outros companheiros de aventuras -

nos encontramos a quatro




porque neste momento,

neste ponto do dia,

posso traçar uma imagem

unindo pontos entre mim, a lua , o sol e as estrelas

e essa miragem marca-me a retina




eu sinto que pertencemos a algo

que tem sentido,

por mais pequena que eu seja

como ponto.




um cacilheiro atreve-se

a acordar o rio suavemente

mas na meia luz

este velho pesado

aparenta-se

a duas metades da mesma laranja

cruzando o rio

em compasso de espera…




mas nem tudo o que aparece é!




e entretanto o cacilheiro desapareceu…

por de trás

de um edifício que se julga mais alto do que muitos.

terei de esperar (im)paciente

- e com adivinhança -

que ele irrompa

uma vez mais

como uma cabeça

desperta entre telhados.




lembro-me do nosso jogo

em que tentávamos adivinhar

de que lado da margem iria aparecer

o mergulhão.




agora já eu consigo juntar-me

ao sono das estrelas




o voo de um andorinhão

desperta-me um último olhar




e pouso

o lápis,

como ensaio para este meu repouso


AVC

sábado, 10 de janeiro de 2015

Estou só?


para a maria pimpirim



Se neste final de dia
eu pudesse ter esperança...
Não sei...
Alguma esperança
em alguma coisa...

Às vezes tenho esperança...
Esperança que a dor não me visite!
Às vezes penso em ti
e a esperança aumenta
e a dor adormece num abraço nunca recebido...

Tu que me acompanhas
mesmo quando não me apercebo da tua presença.

Tu que és mãe e curandeira
Tu que estás mesmo quando não estás

Se eu pudesse!
Se eu pudesse tirar-te a dor com um sorriso
um sorriso aberto sem porquê...

Quanto de ti trago dentro de mim?
Não sei…

Às vezes vejo-te naquela palavra que não sai
suspensa por um fio de timidez.
Às vezes pressinto-te no olhar de curiosidade
com que olho para dentro de uma casa abandonada.
Às vezes confundo-me com o teu olhar
muitas vezes descanso nele
e sinto-me menos só...




À noite...

À noite
procuro a lua
mas ela esconde-se
timidamente
entre uma pincelada de nuvens

espero impacientemente
que a mãe-lua se mostre
e que a sua luz me invada
eu filha da prata e do mar
sozinha entre as minhas irmãs
pequenas estrelas perdidas da sua constelação

os gatos fazem-me companhia
lambem-me as feridas
aquecem-me os pés gelados

cubro-me com um manto de estrelas-anãs

a coruja canta num piar triste
voa em silêncio sobre mim

a erva molhada debaixo da planta dos pés

um pirilampo desperta-me o olhar

o sonho há muito que não me visita
mas o conforto da noite
adoça-me o sentir

o meu coração bate ao ritmo da chuva

há sete noites que te espero

mas quem és tu?

tu que me ouvias
com pequenos gestos me adormecias
com um olhar me soltavas o sorriso

os teus passos já não me acompanham
e no entanto
são a eles que sigo
seguindo entre silvas
que me marcam as pernas

a noite engoliu-te
amor!

aguardo que se lembre de mim
que me trague de uma vez!
que o musgo me cubra
e eu me confunda com as pedras


AV - Abril de 2006

Muito Chá



a Bela Luísa gosta
que olhem para ela

ela quer parecer bela
uma flor
um broche
ao peito

gosta de estar no palco
da moda

que bom que é
irmos todos brincar
ao faz de conta

faz de conta
que agora somos
muito modernos...

como os jovens

vamos ao lixo
com luvas de cetim
e trazemos aquelas coisas
que ninguém quer
para casa...

dão jeito para receber
os amigos
e os ambicionados amigos
e quem a quiser adorar

é uma boneca
de porcelana
parte-se
facilmente

mas...
desde que a olhem
a partir-se
e que a filmem
para a eternidade

(com aplausos
e silêncios
pelo meio)

não faz mal
ser oca

porque mais vale
parecer
do que ser
nestas coisas

e depois...
quando o palco
for outro

maior,
mais concorrido...

basta um estalar
de dedos
com a mão
bem levantada

um som bem moderno

e alguém
que baixando
o nível
das costas,

se verga
para voltar
a colocar
esses trastes no lixo

porque...
para baixar
o nível
de outra forma
só mesmo ela




AV - 2012

Canção do Coração e da Esperança


" (...)
- A Esperança é Feliz?
- O Coração
da Esperança
sobe, sobe pelo ar.
É feliz
a Criança,
a cantarolar...
(piu piu piu)
Mas...
o Vento
a soprar,
leva a Esperança
pelo Mar,
fica então...
o Coração
a lacrimejar...(..)"
   
 - Rima e Conteúdo*


*Nota de Tradutor: A "Canção do Coração e da Esperança" é um poema de origens muito antigas que com o tempo e, dependendo da região onde é cantado, tem vindo a ser reescrito várias vezes e apresenta diversas versões. Esta é uma das versões menos populares devido à pobreza da Rima e do Conteúdo. A Rima e o Conteúdo também por vezes davam o titulo alternativo a este poema de: "Saga de um Amor Difícil". Amor Difícil é descrito em textos muito antigos como uma figura lendária que indo contra Ventos e Marés salvou o Coração e a Esperança de morrerem estrafegados. 



AV - Novembro 2013