domingo, 23 de novembro de 2014

Comprimido Comprometido


para miguel vasconcelos
 que nunca nos deixa pensar desta maneira

 


 hoje casei-me

 estou tão feliz!

 hoje tomei o meu comprimido mamã

 hoje não escrevo poemas

 está prometido

 hoje vou ser uma pessoa normal

 vou para a cama a horas

 cozinho e lavo a roupinha tomo banhinho

 hoje não vou falar com a senhora que está na paragem

 não vou meter conversa com o condutor do autocarro

 não vou ficar a olhar para as folhas que se enrolam com o vento

 não vou parar um momento

 três longos minutos

 fixando a linha que traça

 o avião onde eu desejava estar

 para me levar a qualquer sítio que não este sítio

 onde todos os dias tomo o meu comprimido



 eu e o meu comprimido vamos ser felizes para sempre

 pedaços de felicidade e calma comprimidos

 e prometidos

 hoje não vou perder-me em conversas sem nexo

 hoje não vou gritar liberdade

 e cuspir na cara do sr. dr.

 hoje porto-me bem

 porque sou hoje uma menina normal

 que trata da sua vidinha

 sem levantar problemas

 dentro e fora de si

 hoje até me penteio

 hoje vou virar a cara

 e fingir que não é nada comigo

 quando a vizinha mais uma vez esbofetear a filha

 hoje vou comer a ver o noticiário

 sem que o meu estômago se divida em dois

 vou sorrir com as imagens de mais uma amputação de guerra

 feliz por não ser eu e por ter esta minha vidinha

 tão arrumadinha

 tão segura

 esta vididinha de menina educada no 1º mundo

 sim eu sou uma menina bem comportada de 1º mundo

 eu e o meu comprimido vamos viver felizes para sempre

 se me sinto triste chamo o comprimido

 e ele logo se apresenta todo cheio de cores

 as cores da moda

 sim os comprimidos que eu tomo também seguem as modas

 o sr doutor preocupa-se com as modas

 e assim

 eu e o meu comprimido andamos sempre na moda

 hoje o meu comprimido é de 5a geração

 ai! que pos-moderno

 com o meu comprimido não corro riscos

 deixei de ter pesadelos a noite

 aliás acho que nem sonho

 assim é mais seguro

 e nunca mais voltei a ver os duendes

 nem bolas de luz

 nem peixes a mostrar-me a língua pendurados no tecto

 nada nos tira do serio

 a mim e ao meu comprimido

 eu prometi-lhe ser fiel para toda a vida

 que o testemunhe o senhor doutor

 eu não troco por nada deste mundo o meu comprimido

 é a pílula da sensatez da calma

 o meu comprimido não me admite exaltações

 nem choros

 nem gargalhadas estridentes




AVC - algures no sec. XX



sábado, 31 de maio de 2014

C. subap.*





Peça de Teatro



Título:



"Criança Sobredotada!"


1º Ato:

Personagem "Mente Brilhante":
- de quem a menina gosta mais?
do papá ou da mamã?

Personagem "C. subap."*:
- de mim!

*criança subaproveitada de 4 anos

Não perca o próximo Ato!





AV - 2012/2014

O Barra




O Barra gosta de queimar 

                   fósforos... 
                            
                         uma cabecinha
    
    duas cabecinhas
                   
             3 milhões... de cabecinhas

   
   todas rosadinhas.

                 
            
 E é barra na produção

            
     de cabecinhas... clonadas

      
     sem coluna

                                  
                                 pequeninas

                      
queimadinhas...


    como a dele...

RIP

AV - 2014

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Loucura

A loucura é como uma mãe para mim
Que não me traz qualquer conforto
Cria-me uma vontade de sair de mim
O medo dum confronto
Uma inquietação sem sentido
A dúvida com a aproximação de um carro
A atracção pela alienação
Uma sensibilidade de cirurgião
Sinto-me um pé num sapato apertado
Uma perna com uma cãibra
Um vinho azedo
Uma doente sem cura
Um grito mudo
A loucura é minha companheira
Segue-me como uma sombra
Escondendo-se atrás de cada pedra
Faz-me esperas à porta de casa
Procura-me em todos os bares
Traz-me debaixo da sua asa
Acorda-me a meio da noite
Para me chamar cobarde
Há dias em que me dá um açoite
Que me arrasta pelas ruas
A loucura é má conselheira
É um gato que me abre a ferida
Um pingar constante da torneira
Uma sede desmedida
Uma carta sem baralho
Um amor impossível
Uma manta em retalho
Uma dor invisível
Um fantasma diurno
Uma morte lenta
Um velho soturno
Uma campa à minha espera

Sou

Pingo azul em água do mar rosado
Cuco em ninho de águia
Rã laranja em charco encharcado
Estrela brilhante que não guia
Flor vermelha em cemitério de pedra
Fruto doce que nasce no Inverno
Cogumelo em areia que não medra
Peixe miúdo em tanque de tubarão
Aranha presa pela mosca verde
Bola mas não de sabão
Lebre que sempre perde
Folha solta de um livro
Ponto sem nó
Uma velha biblioteca sem livro
Moinho sem mó
Papagaio em dia sem vento
Minhoca em chão de pedra
Maratonista sem alento
Caracol sem pauzinhos
Gato que não é pardo
Caminhante sem caminhos
Girassol sem sol
Quadrado em folha de linhas
Dó em clave de sol
Carrinho sem linhas
Velha sem rugas
Pássaro sem pio
Buraco em peúgas
Cama sem almofada
Laranja sem sumo
História sem fada
Fogo sem fumo
Borboleta verde em muro amarelo
Marinheiro sem barco
Bebé chorão que quer caramelo
Flecha sem arco
Abelha perdida do enxame
Rio que corre para cima
Festa sem salame
Poema que não rima

Insonia

não durmo
desaprendi de sonhar
restam-me a poesia
e uma noite que se faz dia
o meu corpo solitário está frio
a roupa molhada pelo suor
de 1000 estratégias
para saltar nos braços de morfeu
uma ansiedade que me esgota
e me faz cair no mesmo momento
vezes sem conta
momento de negação do medo
medo de nunca mais dormir
não me digam o óbvios
já tomei um comprimido
supostamente milagrosos
já fiz milhentos exercícios
de yoga e de relaxamento
não
sexo não
estou sozinha
um vicio que tenho
pior que escrever às escuras
sozinha salvo seja
o gato jaime ressona
o que me dá uma inveja danada
antes trovejar que não dormir
restam-me a poesia
e uma noite que se faz dia
poesia que tem de viver dentro de mim
desgraçada e condenada,
pobre poesia que raramente é levada..
a passear pelos caminhos fora de mim
com sorte foge para o ecran do meu computador
ou para um pedaço de papel
onde por vezes se perde na minha letra manuscrita
que mais parece com-pé-escrita
com muita sorte é finalmente imprimida em papel
ai começa a liberdade total
passa de mão em mão, é tocada e retocada
admirada e mimada, principalmente por mim
sou a sua maior fã e a sua guarda prisional
porque raio este contraste
que nos atormenta às duas
medo de ser rejeitada por mim e por vós
medo da loucura que ela provoca em mim
como se as duas fossem irmãs siamesas
como se se a soltasse também soltasse
aquela que mais temo nesta vida
a loucura de mime vamos morrendo as duas
neste dilema
nesta guerra constante
que não me deixa dormir
restam-me a poesia
e uma noite que se faz dia
Dentro em pouco já não terei noite
os pássaros no meu jardim
já anunciam a caída do dia
a noite faz-nos companhia
a mim e à poesia
a poesia só me vence à noite
desperta-me e não me larga
enquanto não a liberto
mas estas insónias são incompativeis
com a minha vida diurna
afinal os poetas também têm de trabalhar
eu não quero ser poeta
e viver nesta noite confortável
mas à qual não sobreviveria por muito tempo
quero ser trabalhadora
formiga diurna
o problema é que não sei bem como
nem porquê
a poesia decidiu instalar-se dentro de mim
não estava a contar com isto
estragou-me os planos
e agora não sei bem o que fazer
dirão vós que escreva
que remédio tenho eu!
As irmãs siamesas são o meu maior tesouro
e pretendo conserva-las acima de tudo
mas tenho um medo que me pelo
que tudo isto me mate
mas enfim antes morrer de poesia
do que de trabalho não é?
Vou mudar de ideias quando nascer o sol
isto é já a poesia que me desconvence

Desejos

Espero que te lembres de mim
no final de um dia de ilusões
Espero que te lembres de mim
numa tarde feita de pedras quentes
Espero que te lembres de mim
no meio de um mar de gente
Espero que me procures
quando eu de ti me esqueça
Espero que me procures
em dias de tremenda busca
Espero que me procures
na ultima pagina do livro
Desejo ver-te em dias de fogo
em que o mal é reduzido a nada
Desejo abraçar-te longamente
depois de te zangares com o mundo
Desejo imitar-te os passos
em dias de valentia
Desejo-te em dias calmos
em que só o vento te distraia
Desejo-te em tardes turbulentas
em que só um abraço te acalme
Desejo-te esta noite junto de mim
para compartir os pequenos pedaços do dia