Aliso as asas
para um último voo
estico-as
olho-as
e numa sacudidela
de asa
olho o abismo
mergulho
o coração bate
em corrida
o bico é o primeiro a partir
Assinado: Rapariga ave-rara
Ao cair
sinto cada um dos meus ossos
ossinhos
a partirem-se
um a um
dois a dois
três a três
a minha dualidade
exponenciou-se
numa explosão de
ossinhos
Assinado: Rapariga ossídica
Raios me partam
e partiram-me
racharam-me
queimaram-me
e de
uma tocha
morri eu
Assinado: Rapariga-tocha
10 dedinhos
9 sinalinhos
8 costelinhas
7 ossinhos do pé
6 ossinhos da mão
5 orgãozinhos
4 perninhas e bracinhos
3 coraçõezinhos
2 olhinhos
1 cerebrozinho
Tudo misturadinho
depois de uma queda
gradualmente calculada
do cimo de um morro
- Ai que morro!
Assinado: rapariga Ai coitadinha!
Por cima do chão
a rasar a erva alta
uns sapatos dependurados
em cima dos sapatos
um corpo pendurado
que balança
ao ritmo
de uma valsa lenta
a corda bem crivada
ao pescoço num laço
de gravata de defunto
é mais que um abraço
a corda pendurada
num sobreiro
que já conhece
outras cordas
com outros motes
e outras mortes
Assinado: Rapariga (que podia ser) de Odemira
Sem comentários:
Enviar um comentário