quinta-feira, 17 de setembro de 2009

À distância de um abraço

para a minha mãe Helena


São estas manhãs que me lembram de ti
A erva húmida a molhar-nos as calças
O cheiro a uma terra tocada por nós
sem se inquietar
A luz que atravessa o pingo da torneira gelada
Volto a dar-te a mão
como quando tinha 4 anos
e o meu olhar se protegia no teu
O ar parece ainda lentamente adormecido
E o vento enrola-me o cabelo na cara
Estendes um gesto
que me afasta os caracóis
de onde se esconde um sorriso
Volto aos momentos
em que a leitura dos teus gestos
era mais simples
Entre a relva procuras
Ervas intrometidas
Enquanto eu conto
Uma das minhas desventuras
À espera do teu sorriso

As folhas secas do plátano
prenunciam o Outono
e o tempo das castanhas
Avisto as rolas
que sempre me queres mostrar
Enquanto elas debicam restos de broa
tu descansas
ausente por momentos
da paisagem que te rodeia
Enquanto encontramos as últimas amoras
a tua presença acompanha-nos
o mesmo cesto que levavas
quando mal caminhávamos
e a mesma mancha na camisa
que vai precisar de sol
as cotovias cumprimentam as pedras
com pequenos saltos
os abelharucos em treinos de voo
tecem o ar
e tu já estendes a toalha
Olho para ti e lembro-me
Do que sempre te quis dizer:
-Mãe ... estás sempre à distância de um abraço…

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